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A influência de Poe na Estética e na Criação Musical Contemporânea A relação de Poe com a música tem sido sempre uma relação privilegiada e bastante produtiva. O próprio autor, grande admirador da arte musical, deixou inúmeras marcas deste entusiasmo em muitos escritos de índole ensaística, jornalística e poética. Em artigos como “Songwriting”, ou em citações sobre a música em Marginalia, ou ainda em ensaios como “The Philosophy of Composition”, o artista americano sempre destacou a importância do material e da técnica musical na composição poética. Designadamente a questão do ritmo, a harmonia entre as partes, o ritmo/repetição, a aliteração e a fonética. Assim, é natural que a sua obra e a sua filosofia da arte houvessem inspirado numerosos artistas e compositores. Desde os HIM (His Infernal Majesty), banda de Metal Finlandesa, cujo vocalista desenhou nas costas uma tatuagem dos olhos de Poe, até Debussy, cuja obra e conceito de “unidade de efeito” poesca foi amplamente explorado e utilizado como um poderoso instrumento de composição. Mas a lista não acaba aqui. Ainda no séc. XVIII, em 1896, pouco tempo depois da morte do autor em 1849, surge uma ópera baseada em The Mask of the Red Death, uma das histórias mais emblemáticas do poeta, da autoria de Ostroglazov, um compositor russo. Em 1957, uma outra ópera é igualmente inspirada em “Some Words with a Mummy”, de Giulio Viozzi. E sucessivas criações musicais a partir dos cenários escatológicos de Poe são realizadas pelos Beatles, The Alan Parsons Project, Philip Glass, Peter Hammil, Mylène Farmer e por aí fora. Os Beatles ainda colocaram a foto de Poe na capa do álbum Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band, de 1967, e criaram uma canção intitulada “I’m the Walrus”, cujo nonsense é uma sátira à sociedade inglesa do seu tempo e, simultaneamente, um protesto de revolta em relação ao modo como Poe havia sido tratado pelos seus conterrâneos: “Man, you should have seen them kicking Edgar Allan Poe”. A apetência das gerações mais novas por Poe, parece dever-se ao facto de este ser um autor não conformista e anti-convencional. O espírito atormentado, a paranóia, a rebeldia, o desejo de auto-destruição são algumas das linhas porque se regem muitas das tendências e sensibilidades artísticas contemporâneas. O niilismo punk de Poe, se assim se pode chamar, era já evidente em Abril de1844, quando publicou o artigo “The Balloon Hoax” no jornal “Sun”. Poe, embriagado, colocava-se à porta do jornal e dizia às pessoas: “Não comprem, não comprem, fui eu que escrevi!” Mais punk do que isto, nem os próprios Mata Ratos. Assim, este tipo de atitude, comparável a uma espécie de niilismo existencial, foi aproveitado por Lou Reed que o integrou como um modo de vida e uma fonte de poder criativo. O próprio vocalista dos Moonspell, há dias, afirmava: “muitas pessoas olham para mim como se fosse uma espécie de aberração com pernas mas, na realidade, eu gosto de ser assim, gosto das minhas roupas, das minhas tatuagens, dos meus cabelos, da minha música, e sinto-me muito bem.” Tal como Reed que, durante toda a sua vida profissional e pessoal, inventava canções sobre drogas, sexo, gente esquisita, loucura, experiências e vanguardismos mais ou menos arrojados, contribuindo dessa maneira para aquilo a que se poderia chamar, uma temática da incapacidade, dos inadaptados – impotência, amores trágicos, abuso de drogas, travestis, tudo isto ao sabor da poesia e de um lirismo em formato rock. Tal filosofia da transgressão e do negrume encontra-se formulada num duplo CD, The Raven, editado em 2003, que constitui uma versão mais alargada da música composta originalmente para a peça de Bob Wilson, POEtry, 2001. Neste trabalho, Reed apropria e reescreve as histórias e os poemas de Poe, como uma espécie de remix onde o tema da perversidade enquanto força de oposição/resistência se torna a principal anima - força condutora da arte e da existência humana. Consequentemente, alienação, ruído, distorsões de guitarra, fealdade, fragmentação e multiplicação, tornam-se práticas musicais e textuais inspiradas nos motivos poescos da perversidade, culpa, rejeição e liebestod. Diamanda Galàs constitui um outro exemplo paradigmático da influência de Poe na música de hoje. A cantora, pianista e compositora é conhecida por aliar o não-conformismo à exploração de territórios experimentais na música. “The Mask of the Red Death”, é um trabalho que vai beber directamente à fonte poiana, subvertendo o conto homónimo de Poe. Trata-se de um triplo CD, de 1988, onde cada disco aponta para uma tipologia da morte vermelha, sendo a peste (a morte vermelha) equiparada à praga por excelência do séc.XX e séc. XXI, ou seja, a SIDA. Como um vórtice, o projecto recria uma espécie de oratória controversa, pagã, mais falada do que cantada, pondo em destaque os motivos da loucura, alienação, sofrimento, terror e desespero, das vítimas de Sida, mas também de todos aqueles que, de algum modo, são vítimas da exclusão social ou do genocídio. Galàs reflecte desta maneira, como num espelho distorcido, a atmosfera de negrume e diabolismo presentes em muitos dos escritos de Poe e apela a uma revolução social e dos costumes. A influência de Poe na estética musical e artística contemporânea continua, assim, a ser extremamente importante ao nível musical e sócio-cultural. Contudo, apesar da múltipla produção de trabalhos em estilos musicais diversificados e inspirados pela sua obra e filosofia artística, continua esta área de cruzamento, entre a musicologia e a estética literária, a merecer maior divulgação e análise. Anabela Duarte CEAUL – Universidade de Lisboa/Faculdade de Letras Adaptação da comunicação "The Raven” and the “Mask of the Red Death”: Lou Reed, Diamanda Galas, and Edgar Allan Poe's resistance aesthetics in contemporary music”, apresentada no âmbito do Colóquio Internacional “Poe and Gothic Creativity”, 18-20 Março, 2009. Publicado e adaptado para edição online, no site Jornalismo Porto Net—Universidade do Porto—Abril 2009 |