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Sexo, colagens e rock & roll: Don Quixote, de Kathy Acker Quem tem medo de Kathy Acker? Artista multifacetada, norte-americana de origem judaica e vítima de morte prematura aos 50 anos de idade (1947-1997), a escritora Kathy Acker é uma figura incontornável da literatura experimental e pós-punk americana. A inglesa, Angela Carter, outra figura extraordinária da ficção experimental inglesa, em comparação com Acker, pode considerar-se uma versão classizante e universitária do trabalho literário no que à experimentação e atitude radical concerne. Que o diga a punk americana. Fascinada pela poesia, Acker absorveu os ensinamentos dos poetas da Black Mountain e do grupo Fluxus. Estudou ainda com Herbert Marcuse, David Antin e Jerome Rothenberg (etno-poéticas), poetas profundamente ligados à vanguarda europeia e, especialmente, ao Surrealismo Francês e ao Expressionismo Alemão. Em Bodies of Work, colectânea de ensaios autobiográficos e entrevistas publicada em 1997, a sua admiração pela poesia e pelos poetas é generosamente intensiva. Neste conjunto de ensaios, ao falar da própria escrita a artista sublinha ainda a influência de Burroughs no seu pensamento e na sua técnica, e na criação das narrativas curtas (short-stories) e romances híbridos em forma de poema em prosa: uma espécie de ficção poética, parte ensaio, parte ficção, igualmente multi-estilística e multi-temática. Uma assemblage de estilos e formas onde o pós-modernismo, na sua melhor forma, encontra eco e repercussão. A obra de Acker encontra-se também fortemente impregnada pelas teorias do pós-estruturalismo francês, por um feminismo “iluminado” e uma filosofia política inspirada na escola de Frankfurt. Aplica-as com rigor criativo e verve de analista cultural aos discursos performáticos e visuais mais radicais, inspiradores da cena artística europeia e nova-iorquina, como é o caso da entrevista ao cineasta/pintor/romancista Peter Greenaway (1990), por exemplo, ou num outro registo, porventura mais popular, a entrevista às Spice Girls (1997). Em Don Quixote, obra publicada em 1986, encontram-se algumas das principais obsessões da artista cujo principal interesse consiste melhor em explorar e descobrir o mundo (ao seu redor) do que procurar ou encontrar respostas tranquilizadoras sobre o bem–estar nesse mundo. A desconstrução do romance de Cervantes torna-se assim um instrumento poderoso para o questionamento existencial de Acker e, simultaneamente, para a abertura que propõe a cada leitor a uma nova consciência do corpo e do pensamento político que atravessam as questões de género ou as questões religiosas e de classe. Don Quixote, no romance de Acker, é uma cavaleira, a acção tem lugar na América, Sancho Panza é um cão, Nixon é o Presidente, e anuncia a todo o momento a chegada do apocalipse…dos trabalhadores e de todos nós. O romance divide-se em três partes. Começa aos primeiros acordes da noite com um aborto. O aborto funciona como um ritual de passagem, um rito de iniciação ao longo sofrimento que precede a clarividência dos ascetas sagrados. A partir daí sucedem-se as aventuras e desventuras duma cavaleira em busca do amor perdido, um amor livre das dicotomias familiares e da tradicional hierarquização dos sexos: feminino-masculino, activo-passivo ou senhor-escravo. Rejeitando as concepções modelares da transformação revolucionária, Acker propõe antes tornar o amor revolucionário, pois numa sociedade materialista, hiper-racional em que o desejo sexual quase se esvanece, bem como os afectos, o amor torna-se subversivo. A partir desta concepção do amor abrem-se novas linhas de voo que nos permitem desafiar o poder dominante, como salienta Steve Shaviro: “Estamos a tentar escapar ao poder dominante mas não estamos num vazio. Todas as situações contêm em si instrumentos que nos permitem modificar as coisas. É esta a sua [Deleuze e Guattari] visão moderna sobre a invenção e a política o que é muito diferente do Marxismo tradicional do tipo vamos-lá-fazer-a-festinha-revolucionária-da-treta”. Acompanhada pelo seu inseparável amor humano Saint Simeon, transformado em cão pelos feiticeiros malignos, a destemida cavaleira entra no mundo dos sonhos e aí combate todos os males do mundo, ao ponto de crer que Prince daria um bom Presidente da América, visto ele ser “muito americano pois em parte é branco e em parte é preto o que quer dizer que em parte é bom e em parte é mau.” Dom Quixote afirma que está louca e a partir desta loucura vai filosofando a sua existência e a da América, ora em tom mordaz e satírico, ora em tom filosófico e sonhador. “Os líderes Árabes são mentirosos; mentir faz parte da cultura Árabe do mesmo modo que dizer a verdade e ser honesto faz parte da cultura Americana”. Desconstruindo as ideias feitas da linguagem simplista e racista do discurso governamental, Don Quixote passeia-se pelas avenidas do pensamento comum americano, mas do lado de fora, da parte da loucura que racionaliza, do ponto exterior onde se quebram as linhas do social. É a partir deste ponto marginal ao discurso, lugar da loucura criativa embora, contudo, ciente das múltiplas manipulações desse espaço pelas figuras de autoridade, que Acker articula a visão da Nova Mulher, Don Quixote, quando pretende tomar a si alguns dos atributos de género historicamente atribuídos aos homens. Trata-se de um lugar de afirmação da individualidade pessoal e sexual de cada indivíduo e, nesse sentido, Acker pretende desafiar a ordem burguesa/patriarcal e o capitalismo onde as dicotomias perpassam todos os níveis da sociedade. Ao contrário de Orlando, de Virgínia Woolf, que ao conformar-se aos papeis sociais do mainstream, havia integrado a sociedade inglesa dos anos vinte, Don Quixote quer pemanecer do lado de fora, do lado da noite, onde o desejo e o êxtase perduram, recreando a nossa sexualidade e as nossas percepções, o Make It New americano. A segunda parte deste romance de apartes, colagens, grafismos e texto, homenageia o construtivismo russo, movimento estético-politico do modernismo russo. Aqui Acker aproveita para inserir uma série de plágios a textos de Wedekind, Lampedusa, Bronte, Sophocles, Bely, Dante, Shaw, Becket, entre outros, apropriando e reescrevendo as suas próprias versões do canône literário. Ao mesmo tempo, através desta prolífica habilidade intertextual questiona o papel do leitor que reescreve o próprio texto, desafiando a narrativa linear. Em frente ao oceano, Lulu, o protagonista principal, afirma: “Agora tenho de encontrar outros como eu, piratas que andam de um lado para o outro, e que conhecendo apenas a mudança e as verdadeiras responsabilidades que desse conhecimento emanam, cantam para e uns com os outros. Agora vou viajar”. A última parte, “O Fim da Noite”, dá-nos a continuação do retrato de uma América onde predominam o abuso do poder, a ganância, a mentalidade estreita, equiparada a Ronald Reagan e a uma determinada tendência feminista conservadora, que a escritora critica e ridiculariza: “Os feiticeiros malignos como o Ronald Reagan e determinadas feministas, como a Andrea Dworkin, que controlam as relações do governo e da cultura perseguem-nos e continuarão a perseguir-nos até nos terem conseguido enterrar e rebaixar, afundar no nosso próprio esquecimento.” E o interlocutor, um apanhador de cães, pergunta: - “Não percebo. (…) Mas porque é que Ronald Reagan e essas feministas haveriam sequer de preocupar-se contigo?” “Porque sabem que eu estou prestes a acabar com o feitiço deles de modo a salvar o amor,” respondeu a cavaleira (night/knight). Seguem-se uma série de referências ao governo e às teorias da conspiração tipicamente americanas, mas através das quais Acker sistematiza as suas ideias sobre o poder, a humanidade, e o fraco poder de agenciamento do cidadão comum, facilmente enganado por uma máquina propagandista perturbadora. “O que é que podemos fazer? O falhanço da minha escrita. O falhanço da revolução.” Há um capítulo sobre a heterosexualidade e referências várias ao masoquismo. “Alegria. A memória da alegria é que me faz consciencializar o meu presente sofrimento.” Sofrimento auto-infligido, com o objectivo de recuperar o amor, tal como algumas seitas religiosas o prescrevem e conjuram num ritual de expurgação de todos os males. O masoquismo em Acker, no entanto, cumpre uma função libertária. A dor assinala um impasse emocional, uma angústia latente, ou um arcano conflito prestes a ser libertado, ensaiado e/ou resolvido. É também um dos meios pelos quais a escritora ataca as fronteiras proibidas do ser e do corpo, num acto fisicamente expressivo e transgressivo. Os personagens masoquistas de Acker combinam a procura da dor com a transformação radical do corpo social e da sexualidade. Don Quixote, a cavaleira bisexual da noite, envolta na transformação dos géneros e das ideias, chega assim ao fim da viagem, ouvindo a voz de Deus: “(…) já não existem mais histórias, nem vestígios, nem memórias: apenas tu, cavaleira. Como já não existo, esquece-Me. Esquece a moralidade. Esquece tudo sobre a salvação do mundo. Reinventa-me.” Anabela Duarte—Publicado na Revista Umbigo, July 2008 |