A arte e o terror: O homem em queda, de Don Delillo

 

O maior drama da história Americana, o 11 de Setembro, marcou de tal modo uma viragem no pensamento e na sensibilidade quotidiana dos americanos (“As pessoas andavam a ler o Alcorão“) que os dias que se seguiram, de acordo com Delillo, passaram a chamar-se os dias do depois (“tudo agora se mede em depois“). Como se os dramáticos acontecimentos marcassem uma clivagem, um momento de consciencialização fundamental para a compreensão da própria identidade e da memória colectiva de uma nação, a que não será estranho, um certo tom e ressonância biblicas. “A América está a perder o centro” diz Martin, um dos protagonistas da história, e um outro pergunta: “O que virá depois da América?” É uma boa pergunta.

     Estas questões de teor político-conspirativo e de assassinatos por suposta encomenda há muito que fazem parte do campo literário e magnético do autor. Um conjunto de premonições dramáticas e de ruído negro (ou branco, se quiserem) tem vindo a ser anunciado por Delillo desde o seu primeiro romance Americana (1971), onde os temas da família, da rejeição às pressões do comércio, da autenticidade e da identidade ganharam uma nova frescura através duma escrita sempre certeira. Ele insiste sobretudo que consumir na América não é comprar perdidamente, mas sonhar. Sonhar com o que os paladinos do marketing e da publicidade querem com que nós sonhemos: com a descoberta de um outro de nós, um alter-ego colonizado pelos media e transformado em consumidor a toda a prova, em que a realidade primeira é a do poder da imagem e não a sua representação - o simulacro da própria consciência que, afinal, já vinha no Mayflower: a América como anúncio publicitário.

A questão essencial para Delillo é saber até que ponto não será a arte um mero produto de consumo? Até que ponto a identidade, a autenticidade e a revolução não são diluídas no sistema de propaganda dos média? E como podemos escapar a este aglutinamento duma diversidade que uniformiza?

     Godard considerava os seus filmes como actos terroristas, quer contra a burguesia cultural, quer contra as convenções do cinema clássico. E sabemos quanto o realizador Françês influenciou a escrita do autor Americano, ao ponto de este assumir as suas primeiras histórias como remakes de filmes do cineasta (“Coming Sun. Mon.Tues”, 1966, “Baghdad Towers West”,1968 e “The Uniforms”, 1970) , propondo provocadoramente, a inversão da ordem canónica entre literatura e cinema. Primeiro cria-se o filme e depois o livro.

     Para Don Delillo, a aproximação entre arte e terrorismo é igualmente fascinante enquanto modelo de independência artística e rigor visionário. No sentido em que se a realidade ultrapassa largamente a ficção, como o acto terrorista do 11 de Setembro tragicamente demonstrou, onde paira então a ficção propriamente dita? Será esta a era da não-ficção?

Em Mao II (1991), o protagonista afirma que os terroristas estão a ganhar terreno aos romancistas: “Beckett é o último escritor com capacidade para moldar a nossa forma de pensar e agir. Depois dele, o trabalho mais importante envolve explosões aéreas e edifícios a ruir. É esta a nova narrativa trágica.”

A 16 de Setembro de 2001, no rescaldo do evento que assombrou o mundo, Karlheinz Stockhausen declarou publicamente o 11 de Setembro como “A maior obra de arte de todos os tempos”, e foi ostracizado pelos seus pares, bem como pelos média, correndo, a sua música, sérios riscos de manifesto boicote. Mas se atentarmos à natureza do seu trabalho, perceberemos melhor, certamente, a razão de tal fascínio por esse acontecimento. Adepto da experimentação e do alargamento radical da forma e do sentido musical, optando por expandir os objectos sonoros e espaciais da música à electrónica, a processos aleatórios e à música concreta, bem como à escolha de locais para performance inusitados, parece assim mais natural a sua admiração por um evento extraordinariamente cumprido e perfeito enquanto object trouvée, passe Duchamp.

     De volta a Delillo, numa experiência visionária similar, Gladney, em White Noise (1985), exprime o seu fascínio e o seu terror pelo avanço da terrível nuvem tóxica (“airborne toxic event”): “Era uma coisa terrível de se ver, tão perto, tão baixo….Mas também era espectacular, fazia parte da grandeza de um evento incontrolável… O nosso medo era acompanhado por um sentimento de espanto que raiava o religioso (…) vê-la como uma força cósmica, maior do que a própria vida, mais poderosa, criada por ritmos elementares e deliberados.”

     O ultimo livro de Don Delillo, editado pela Sextante, invoca magnificamente o universo de temas e contra temas de que temos vindo a falar. Aparentemente, o homem em queda é um artista que após os famigerados acontecimentos (“10 dias após os aviões“), começa a aparecer, sem aviso prévio, em vários pontos da cidade, atirando-se do alto de edíficios, pontes, estações, sem rede, apenas com um arnês de segurança, ficando suspenso de cabeça para baixo, perna flectida a lembrar a posição a pico dos anjos suicidas das torres mortíferas. O pânico é geral. O artista é preso, é espancado, mas retoma a performance, sempre, de novo, como que a proceder à ab-reacção do público que, em terror, revive os momentos do desastre em cada acto performativo. Haverá regeneração possível?

     Esta pequena peça teatral serve, no entanto, como uma espécie de abertura dum centro temático, que dá o nome ao livro e que envolve toda a narrativa, permitindo, a um nível mais profundo, observar os bastidores da acção onde se desenrolam os dramas da vida interior dos casais Lianne e Keith (“eu sou assim, informe”), sobretudo, mas também de Martin Ridnour (“negociante de arte”) e Nina Bartos (historiadora de arte, mãe de Lianne), e ainda toda a atmosfera de medo e desorientação das pessoas e crianças directa ou indirectamente envolvidas no drama geral. O terror por via dos próprios acontecimentos e da ritualiadade das  performances vai mudar radicalmente a vida das pessoas, aproximando os dois protagonistas principais e separando os outros, Martin e Nina. As próprias crianças do núcleo de Justin, filho de Keith, teimam que as torres não caíram (as crianças nova iorquinas viam na TV os aviões e achavam que era tudo mentira) e inventam em segredo o nome da primeira parte do livro, Bill Lawton, que tresleram de Bin Laden. Nestes primeiros cinco capítulos o clima de dúvida e insegurança é impressionante e, pela primeira vez, os protagonistas começam a interrogar-se sobre a própria identidade e o seu sentido na vida (“[Keith] Começou a aperceber-se do que fazia (…) [Lianne] Ela via um homem que nunca até então conhecera”) . Keith reage com afectividade reveladora ao filho e à mulher Lianne, e esta, por sua vez, toma maior consciência de si própria, sem se rever tanto nos outros, embora escrutinando sempre obsessivamente os obituários das vítimas dos ataques.

    São ainda apresentados os amigos do grupo de escrita criativa de Lianne, em East Harlem, que sofrem de Alzheimer e que são ao longo de toda a história um conjunto de personagens chave para se perceber a estreita relação entre o ambiente dos ataques, a memória colectiva e os dramas individuais, com expressões de grande humor, como os bolos que Benny traz e que são “grandes vesículas cobertas de compota”. A questão da memória e da intimidade é fundamental e estes encontros de exposição dos próprios sentimentos e emoções com base na reconstituição de memórias constituem também um momento de catarse na vida destas personagens-autores, bem como na vida de Lianne: “Precisava daquelas pessoas (…) Havia ali algo de precioso, algo que se derrama e sangra”. É também nesta primeira parte que Don Delillo introduz o personagem da mala, envolto em cinzas e pó, e que o andara a assediar desde que a sua fotografia surgiu em todos os jornais americanos. À moda do melhor policial o autor interroga-se: Quem é este homem? Qual é a sua história? E porque anda com esta mala? A mala é de outra pessoa.

     A primeira parte encerra com um aparte sobre Hammad, aprendiz de terrorista em busca de um nome, de um lugar na história em que “tinha de lutar contra o desejo de ser normal”, de modo a transformar-se “no sangue que corre nas veias uns dos outros”. Estruturalmente a arquitectura da obra é semelhante nas três partes que a constituem, denotando uma simetria pouco lisongeira em Delillo. Mas o recheio de cada uma das partes é realmente imprevisível, pelo modo como os protagonistas (se) dizem e fazem sentir ao leitor. Ou melhor, pelo modo como eles (se) dizem e nos transportam a novas meditações. Na segunda parte, ficamos a saber que Martin (“o negociante de arte com paredes nuas”) era, afinal, Ernst Hetchinger, um terrorista alemão dos anos 60 e 70. Mas para Lianne esse facto não era agravante pois “é um de nós, pensou, e este pensamento provocou-lhe um calafrio, uma onda de vergonha- um de nós, o que queria dizer ateu, ocidental, branco”. Há aqui um sentido de esvaziamento, como se se tratasse de um filme de Wim Wenders, As Asas do Desejo, precisamente, no ponto em que os anjos descem à terra seguindo e observando a extrema leveza do ser, os seus anseios e trágico destino. Tal como em Hammad há um desejo de morrer, de esvanecer, até o rosto no espelho já não ser o seu mas o outro rosto dos adolescentes xiitas com as chaves do paraíso; enquanto Keith, insensivelmente, começa a transformar-se no ar que respira. Vítimas e agressores são assim vistos pela mesma câmara mas em planos diferentes. Ambos gritam Deus na hora do embate, e embora havendo tantos vídeos e fotografias desse choque fatal, continuam as pessoas, os sobreviventes, a ser a superfície fotossensível e crua dos acontecimentos. Estas fotografias da alma, estes ruídos que o cérebro produz, são a substância mesma do homem em queda, artista, que, ironicamente, sofria da coluna vertebral, tinha problemas cardíacos e hipertensão arterial.

 

Anabela Duarte – Publicado na Revista Umbigo  April 2008

Edições Sextante 2007