Aileen Wuornos: monstros são os outros

“Eras poeta e pintor e agora és um assassino de homens brancos” (Homem Morto, 1995, Jim Jarmush)

 

O filme Homem Morto, de Jim Jarmush, assenta que nem uma luva a Aileen Wuornos, célebre prostituta, assassina de camionistas e “wildcards” (sodomizadores brutais). Mas não se assustem, ainda. Apesar de ser uma mulher de ferro, disposta a vingar as partidas e atrocidades que o destino lhe reservou, Aileen era uma mulher, ou melhor, uma criança como as outras. Nascida em Michigan, nos USA, em 1956, filha de mãe adolescente e pai com tendências pedófilas e criminosas, uma das poucas fotografias que conhecemos desse período, mostra-nos uma criança de sorriso radiante, loura e muito bonita. Leva-nos a crer que neste período, Aileen sentia-se bem com o mundo e as pessoas que a rodeavam, pois exprimia a beleza da vida em todo o seu semblante. Seria seguramente poetisa e pintora inocente, fantástica e romântica, tal como a vida e o percurso existencial do Dead Man, metáfora espiritual de William Blake, transvestida em versão arty e pós-moderna do clássico Western. E tal como o herói do filme, a nossa protagonista caminha para a morte. Não sem antes haver eliminado uma série de homens brancos, cruéis parceiros no jogo da raça, do sexo e da violência.

     O retrato da criança confiante e sonhadora esvanece-se, assim, tal como a poesia irrepreensível do filme de Jarmush, quando deparamos com os factos e a trágica vida de uma das mulheres mais controversas da história criminal americana. Sujeita a abusos e maus tratos sexuais e físicos perpetrados pelos avós maternos, seus tutores legais desde que fora abandonada pela mãe e falecera o pai, a sua vida pauta-se por uma infindável série de relações sexuais precoces com grande parte dos amigos de infância e colegas de escola, incluindo o próprio irmão.

Aos treze anos fica grávida e o filho é entregue para adopção. Entretanto, morre a avó materna, suicida-se o avô e agoniza o irmão com um cancro. Tem quinze anos e está sozinha no mundo, sem dinheiro, sem amigos, mas cheia de raiva e vontade de viver. Não se pode exigir mais, nem menos. Afinal, as coisas são como são. Mas porque são assim e não doutro modo? Aos doze anos, de bruços sobre a mesa da cozinha, apanha sovas do avô com um cinto de couro, e uma das amigas presenciou o castigo macabro repetidas vezes. O mesmo avô que, segundo sugeriu Aileen mais tarde, a violava. Como é possível? O que fez a amiga? Quem denunciou a barbaridade e qual o sistema que lhe concedeu apoio? Silêncio.

Tais antecedentes traçaram definitivamente a carreira profissional de Aileen e estabeleceram  a sua estigmatização social. Os especialistas em criminologia crítica a esse respeito são muito claros: “A estigmatização é o processo pelo qual a sociedade atribui a alguém a etiqueta de desviante, processo esse que conduz à exclusão, à interiorização de uma identidade negativa e à multiplicação da desviância.” E se alguém ainda tem razões para acreditar que o sistema criminal “é um vasto aparelho de produção de crimes e de etiquetagem de pobres miseráveis”, bem poderia tomar o caso de Aileen por paradigma.

     Assim, à falta de opções, a “pobre miserável” fez-se à estrada e a par da prostituição, roubou e assaltou estabelecimentos, multiplicou identidades e falsificou documentos e ainda conseguiu ter algumas relações heterosexuais breves e apaixonadas, marginais, até encontrar o amor da sua vida: Trycia Moore, lésbica de vinte e quatro anos de idade.

A partir daí os acontecimentos desenrolaram-se num ápice. No curto espaço de um ano, mata sete homens, clientes do sexo que supostamente a queriam atacar e violar/sodomizar. Alega homicídio em legítima defesa e apela à compreensão dos juízes e jurados. No entanto, o seu comportamento agressivo, dado a excessos e fúrias súbitas em tribunal, não lhe valeram a compreensão tão esperada, bem pelo contrário. Dum dia para o outro tornou-se uma celebridade: a primeira serial killer dos USA! Os tablóides, a televisão, o cinema, os guardas e investigadores da polícia, as biografias, e até uma mulher (Eileen Pralee) que tinha recebido muito atempadamente a chamada de Deus para sair em socorro de Aileen, ofereceu-se para sua mãe adoptiva, e todos disputaram a atenção dos média e receberam avultadas quantias para entreterem o público com as vicissitudes da “Prostituta das auto-estradas”, ou com “A dama da morte”.

     O filme “Monster”, em 2003, um ano após a execução de Aileen por injecção letal, fez sucesso de bilheteira, mas ninguém se lembrou de agradecer à verdadeira protagonista do filme, bem vistas as coisas. Afinal, já estava morta e tudo. Não havia lugar a preocupações. Diamanda Galás, defensora dos fracos e oprimidos, afirmava em grande estilo: “Os anúncios do filme começaram a aparecer logo no dia a seguir à execução de Aileen. (…) Essa gente nunca deu um centavo para ajudar a pobre mulher, mas diziam “preocupar-se muito” com ela. Astuciosamente, ao intitularem o filme de “Monster” jogaram com a duplicidade do nome e com um velado sardonismo. Fizeram dela gato e sapato e depois despejaram o corpo no caixote do lixo.” Mais à frente, acrescenta ainda: “Para eles, de qualquer modo, ela nunca existiu, nunca teve uma vida, uma história assustadora para contar ou discutir com compaixão. (…) Dentro de pouco tempo, Hollywood poderá dar-se ao luxo de subsidiar as licenças sabáticas das suas estrelas femininas e masculinas e assim já podem ser elas a cometer os próprios crimes, com os devidos advogados de Hollywood a apoiar. Dessa maneira, já não terão necessidade de matar passivamente os protagonistas reais e vivos, com receio de retaliações judiciais.”

     Esta questão da justiça e da advocacia foram muito importantes e decisivas no caso Aileen Wuornos e o comentário de Galás é muito pertinente. A mensagem é simples: com bons advogados tudo é possível. Não há crime sem lei. E, na realidade, Aileen teve sempre os piores advogados. Desde o início do seu encarceramento, após haver confessado os crimes alegando legítima defesa, que o processo foi entregue a advogados públicos, sobre atarefados e, por isso, incapacitados para constituirem uma defesa credível. Apesar da sua fama enquanto suposta assassina em série, não conseguiu arranjar advogados melhores. Tanto mais estranho parece, quando sabemos que na história criminal americana existem numerosos exemplos de ofertas de serviços de advocacia particular e gratuita a famosos assassinos em série. E nem todos tiveram direito a um filme (Monster, 2003), uma ópera (Wuornos, 2001), dois documentários, do realizador inglês Nick Broomfield (The Selling of a Serial Killer, 1992; Life and Death of a Serial Killer, 2003), numerosas biografias e antologias do crime (Lethal Intent, 2002; Dead Ends, 2003; Bad Girls Do It!, 1993), programas televisivos (Overkill, 1992; A woman scorned, 2003), e muito mais.

     Ted Bunty, famoso assassino que matou mais de 35 raparigas em cerca de 5 anos (1973-1978), teve ofertas várias de advogados particulares conceituados que o defendiam pro-bono.

Richard Kublinski, mais conhecido pela alcunha “homem de gelo” e assassino a soldo (“wrong man to cross!”), matava as vítimas com requintes de malvadez e foram mais de duzentos homens. Obteve prisão perpétua e advogados a condizer. Henry Lee Lucas cujas vítimas ascenderam a mais de trezentas e cinquenta teve igualmente prisão perpétua. Tudo homens que assassinavam mulheres, exceptuando Kublinski que só eliminava homens. Todavia, Aileen cujas vitimas ascendiam a sete e que, de acordo com o seu testemunho, teria sido em legitima defesa, tentou fazer um acordo para conseguir prisão perpétua e a acusação fez questão de a levar a tribunal e condená-la à morte.

     Em The Culture of Fear: Why Americans are Afraid of the Wrong Things (A Cultura do Medo: Porque é que os Americanos têm Medo das Coisas Erradas), Barry Glassner, sociólogo da cultura e dos média, tenta fazer-nos compreender como na maior parte dos casos aquilo que mais tememos são as coisas amplificadas pelos média que exploram, sobretudo, o nosso lado negativo e os nossos medos mais ancestrais. Assim é com o crime, com as drogas, as minorias, as crianças assassinas, os micróbios mutantes, os desastres de avião, e por aí fora. Um dos exemplos mais interessantes para o nosso tema é o caso da existência de alguns relatórios dos anos oitenta e noventa que denunciavam a existência de crianças violadas e torturadas ritualmente e os americanos, em geral, estavam convencidos tratar-se de seitas satânicas. Contudo, veio a verificar-se que a maior parte dos incidentes nunca tinham acontecido. As crianças que haviam participado em tais rituais afirmavam não terem sido maltratadas e, só mais tarde, mudaram de opinião, devido à pressão dos pais e das autoridades repressoras. Na realidade, as histórias de tais abusos e horrores eram inventadas pelas mães das crianças, as quais projectavam nos filhos os abusos que elas próprias haviam sofrido e que tinham medo de enfrentar. Os filhos serviam, assim, de bode expiatório para os seus protestos contra os homens e a dominação masculina, sem terem de passar por pouco femininas. De acordo com os jornalistas Nathan e Snedeker, “ a cultura dominante requeria ainda que as queixas das mulheres sobre a desigualdade e a violência sexual fossem comunicadas através da voz inocente e mortificada das crianças.”

     Aileen era demasiado rebelde e não convencional para poder aceitar este tipo de códigos sociais, mas era igualmente, e em todos os aspectos, uma figura devastada pelo poder do patriarcado e por figuras femininas, como a mãe e a avó materna, incapazes de enfrentarem os seus próprios medos e de lutarem contra as atrocidades dos homens da família. A mãe preferiu fugir e a avó, praticamente, suicidou-se.

     Manipulação e abuso institucionalizado de mulheres e crianças, é precisamente do que trata a ópera Wuornos, dedicada à nossa protagonista. A compositora e libretista Carla Lucero introduz o mote: “Dos homens espera-se que reajam, que sejam violentos, que se defendam e retaliem. Será assim tão chocante que uma mulher, vitima de terríveis abusos em criança e mais tarde enquanto adulta, tenha morto alguém em legítima defesa e que depois tenha reagido automaticamente a ameaças de violência sistemáticas à sua pessoa? Os homens que regressam de combate chamam-lhe “stress de guerra”. No entanto, as mulheres andam nas trincheiras há séculos.”

     Uns dias antes da execução, Nick Broomfield realizou a derradeira entrevista a Aileen e contou-lhe que havia falado com a sua mãe biológica e que esta lhe pedira perdão. A reacção dela não se fez esperar. Completamente fora de si, afirmou que nunca perdoaria àquela vaca o mal que lhe fizera e adiantou que a filha da puta só tinha aparecido uma única vez no funeral do pai e do irmão. A bem ver, sempre é mais compreensível e mais verdadeira a sua fúria do que a habitual lamúria sobre os encantos da filiação maternal. Broomfield saiu convencido de que ela estava louca. Mas, quanto a nós, estava apenas cansada de tanto carnaval* e tão só que lhe apetecia chorar*.

 

* Carnival, canção de Natalie Merchant que Aileen pediu para ser tocada no seu funeral.

* I’m so lonely I could cry, de Hank Williams, 1949. Parte de um ciclo de canções de Diamanda Galás, dedicadas a Aileen Wuornos.

 

                                                                                              

                                                                                                                   In Revista Umbigo Jan-Mar, 2010